Algumas considerações sobre amplificadores,
alto falantes, suas capacidades e possibilidades.
por Ruy Monteiro
Sobre alto-falantes, é importante comentar o seguinte:
Embora na especificação e na embalagem do produto nós possamos claramente ler “Impedância = 8 ohms”, infelizmente essas informações são bastante teóricas, sendo a realidade bastante diferente.
Temos constatado uma tendência cada vez maior por parte de alguns fabricantes de alto falantes em especificar os mesmos com teóricos 8 ohms que, na verdade, apresentam numa importante parte de suas curvas de impedância valores que chegam a 5 ohms ou menos! Isso se deve a razões variadas, sendo que a principal se traduz em: Aumentar, aparentemente, a sensibilidade do produto! (a impedância mínima é um item no qual a norma permite um máximo de 20% de desvio ou tolerância em relação ao valor nominal, o que pode significar até 6,4 ohms). Esse desvio é, portanto, permitido segundo a norma e, conseqüentemente, aproveitado ao máximo (e muitas vezes abusado) em alguns casos como recurso de venda e marketing, mas é muito prejudicial aos amplificadores convencionais e, portanto, ruim para o sistema em geral.
Para se ter uma idéia, basta comparar:
O que acontece quando conectamos um falante denominado A, de 800 watts RMS e sensibilidade de 95dB a 2,83Volts e impedância mínima dentro da norma de 8 ohms, a um amplificador ajustado para 800 watts RMS, é que o falante irá drenar deste amplificador os tais 800 watts RMS. Até aí, tudo ok.
Se substituirmos, porém, o falante A por um outro denominado B, com a mesma capacidade de potência (800 watts RMS) e a mesma sensibilidade (95dB a 2,83Volts), porém com impedância real de 5 ohms (como é comum hoje), o amplificador se verá obrigado a fornecer para este novo falante 1.280 watts!!! Em amplificador com damping elevado comuns hoje (bons amplificadores se orgulham de ter) a situação é mais crítica.
Mas qual é o grande problema em tudo isso? Em primeiro lugar, tanto o falante A (recebendo 800 watts), quanto o B (que está recebendo 60% mais potência, neste caso 1.280 watts), estarão reproduzindo inicialmente a mesma pressão sonora mas, em poucos instantes, ambos começarão a sofrer compressão térmica (aquecimento da bobina, natural do componente que opera a alta potência). A compressão térmica é diretamente proporcional à potência que o falante recebe e tem como efeito a perda de eficiência sonora. Deste modo, o falante B sofrerá muito mais com este fenômeno e ao mesmo tempo em que estará recebendo muito mais potência, tocará cada vez mais baixo do que o falante A.
Se não bastasse, em segundo lugar, o falante A estará operando dentro das suas capacidades especificadas de potência (800 watts), enquanto que o falante B estará operando totalmente fora da sua característica, ou seja, muito além do máximo de 800 watts garantidos pelo fabricante, o que fatalmente abreviará a vida útil do mesmo. Haverá ainda um aumento de 60% no consumo total de energia, que diminuirá muito a confiabilidade do sistema.
Pra terminar (e piorar mais ainda), amplificadores não são fontes inesgotáveis de energia e, por isso, não se pode ir simplesmente baixando a impedância de carga nas suas saídas para extrair cada vez mais potência. Os amplificadores são hoje em dia muito mais precisos, estáveis e bem controlados do que os alto-falantes em suas capacidades e características. Isto quer dizer que, ao contrário do falante, que pode simplesmente durar menos se submetido a um regime inadequado, o amplificador mal instalado por causa da baixa impedância na sua saída pode aquecer rapidamente. Neste caso, os limitadores de potência entrarão em funcionamento, protegendo o equipamento e até desligando-o. Numa outra circunstância, caso a tensão da rede esteja muito fora do valor nominal, o amplificador nem ligará, precavendo-se contra o mau uso.
O que um amplificador precisa ter para trabalhar corretamente com os falantes hoje?
A Studio R há muitos anos fabrica amplificadores de alto desempenho para uso profissional que são comercializados em todo o Brasil, bem como em outros lugares do mundo. Até 2003, nossa meta principal eram os amplificadores diferenciados especialmente construídos para alimentar quatro falantes por canal em condições reais. É por isso que ninguém fabrica amplificadores iguais aos Studio R Desde 2004, implantamos uma linha de amplificadores pra dois falantes, a linha de, chamados, 4 ohms.
Como vimos, devido à baixa impedância real dos alto-falantes atualmente, para alimentar 4 falantes por canal, um amplificador precisa ter a capacidade de operar com cargas da ordem de 1,5 ohms em condições normais. Na linha de 4 ohms o mesmo ocorre, e os amplificadores devem operar com cargas na ordem de cerca de 3 ohms. Para o amplificador não somente tolerar estas condições extremas, mas ainda fazer isto em temperatura ambiente até 40 graus sem desligar por proteção térmica ou, pelo menos nos casos mais críticos, se proteger com seu desligamento automático caso ocorram maiores desvios nas características dos falantes e para que ele não sofra danos eletrônicos, é necessário o sistema 4x4 ou similar de 3 ohms para linhas de 4 ohms. Isso ainda é exclusividade Studio R.
Para dimensionar amplificadores devidamente preparados para esta realidade, nossos projetos são então baseados não somente nas características dos alto-falantes conforme as normas nacionais e internacionais, mas também nas “tolerâncias” permitidas pelas mesmas e em nossa realidade. Apesar das normas existirem justamente para permitir a compatibilidade entre falantes e amplificadores, atualmente (infelizmente) as coisas não são tão simples.
Por que amplificadores importados não possuem também este sistema?
Porque no exterior não se costuma ligar mais que 3 falantes por canal de um amplificador de 2 ohms. Os próprios manuais de amplificadores importados não recomendam a ligação de mais de 3 falantes por canal de um amplificador. Isso é considerado mau uso inclusive lá fora. Mas a realidade deles é outra.
Muitas vezes ouvimos elogios sobre projetos de amplificadores importados muito leves e compactos. O problema é que a maioria sequer ligará no Nordeste, por exemplo. No Brasil a energia sempre foi um problema de infra-estrutura e, por isso, amplificadores nacionais já são naturalmente dimensionados para tolerar redes absurdas de mais 15% e menos 25% em seu valor nominal (porque o show deve continuar). Os gringos também não tem este problema.
Entretanto, se agora tivermos que aceitar qualquer coisa, inclusive abuso e desrespeito puro e simples às normas técnicas, teremos um grande retrocesso em nossa economia e tecnologia.
A norma brasileira de alto-falantes não exige nenhum absurdo de seus fabricantes, tal qual a norma de trânsito que recomenda a utilização de cinto de segurança: é somente o melhor para todos nós. E o melhor dessa norma é que ela não encarece o produto e permite que se monte um sistema de som sem surpresas desagradáveis no dimensionamento dos cabos condutores e dos amplificadores.
Devemos, portanto, conclamar aos fabricantes de alto falantes que sigam as determinações da norma brasileira, que também é semelhante às internacionais, para facilitar o trabalho de todos nós.
Enquanto isso, procurem respeitar as relações de impedância e os limites de seu amplificador, além escolher com muito cuidado os falantes optando sempre pela qualidade. O barato sai caro...
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